CARREIRA & NEGÓCIOS

A segunda pior entrevista na carreira


Esse é um espaço também para falarmos sobre carreiras. E você só começa (ou dá continuidade a) uma carreira se você é admitido em algum processo seletivo.

Nada mais estressante: o sujeito tá lá, precisando de um emprego, ou mesmo ele está empregado mas tem interesse naquela nova posição, e tem pela frente um entrevistador na frente.

Já fiz várias entrevistas. Muitas mesmo. Boa parte delas como entrevistado, outras como entrevistador.

Mas no papel de entrevistado, puxando pela minha memória, tenho várias histórias de sucesso. E outras  de fracasso. Aliás, numa rápida consulta a vários amigos, descobri que não sou o único a passar por entrevistas que seriam hilárias, não fossem trágicas. Se bem que tempos depois eu aprendi a dar muita risada sobre elas.

Mas quase nenhuma supera uma que fiz alguns anos atrás. Foi a minha 2a pior entrevista na carreira. Mas cheia de lições. Vamos a ela.

Após passar por uma primeira entrevista com um diretor-sócio-intergalático de uma grande empresa de consultoria-auditoria, ele julgou que eu era “o cara” para assumir uma função em uma diretoria da empresa, ligada a projetos de investimento em infra-estrutura por conta dos mega-eventos (Copa, Olimpíadas, essas coisinhas).

O problema: havia já um diretor-sócio na área, subordinado a esse intergalático, e claramente ele era o cara que mandava na área. Mas eu poderia fazer parte da equipe, naturalmente subordinado a ele, para ajudar nos projetos.

Sem problemas para mim. Depois de um certo período na vida você se importa mais com a conta-corrente e o tipo de trabalho que tem a fazer, do que com o cargo no cartão de visitas.

Mas antes eu teria que passar por uma entrevista com o sujeito “dono” da área. Natural. Eu não poderia trabalhar com alguém sem antes ser sabatinado por ele.

Chego no escritório do meu entrevistador no horário combinado menos 10 minutos. Aliás, cabe aqui uma dica básica: nunca atrase uma entrevista. Também não chegue uma hora antes. Isso é tão horroroso quanto atrasar.

Vamos em frente. Aguardando na sala ao lado, percebo que meu entrevistador conversa na sala dele animadamente com alguns consultores. Nove horas, nove +10, +20, finalmente ele me chama para conversar, pouco mais de 20 minutos atrasado. Deselegância da parte dele, pensei com meus botões do terninho básico. Dirigi-me para a sala dele já desligando celular e ativando o cérebro.

Antes, uma outra dica: aprendi nessa bendita vida corporativa que qualquer reunião, qualquer entrevista, qualquer evento corporativo, você tem que estar minimamente preparado para abordar os assuntos possíveis da conversa. E isso inclui uma profunda análise na empresa em questão. Uma boa “googleada” vai ajudar. Não fique apenas no web site. Procure notícias recentes da empresa, veja o que fala seus executivos na mídia, quais os últimos movimentos, essas coisas.

Além disso, uma entrevista é antes de tudo um evento de 40 minutos, uma hora, que pode mudar sua vida profissional. Portanto é importante uma total concentração. Imagino como um lutador de UFC, tirando as porradas físicas, claro. Ou seja, cada palavra, cada gesto, cada pergunta que você fizer, conta tanto quanto cada resposta dada e pode significar a diferença entre avançar no processo, ou morrer ali.

Já me dei mal em excelentes oportunidades exatamente por não seguir essa lição.

Em frente ainda. Entrei no octógono da entrevista. Eu e meu entrevistador, frente a frente.

Depois do quebra-gelo inicial – bom dia, como vai, tudo bem, bla bla bla, sempre dirigido por ele (não esqueça, você é o entrevistado, logo o entrevistador comanda o show.

Ele termina as preliminares e ele pára olhando atentamente ao meu currículo.

– Quer dizer que você é economista? Não gosto de economistas. Não gosto de trabalhar com eles!

Ainda achando que se tratava do “quebra-gelo” ou algum tipo de brincadeira, eu sorri e perguntei passando um pouco mais a fronteira da formalidade que uma reunião dessa merece:

– Nossa, você não gosta por causa dos diversos planos econômicos do Governo ou por outro motivo?

E ele respondeu fazendo questão de deixar claro que não estava brincando:

– Não gosto mesmo! Prefiro engenheiros. Eles são mais cartesianos. E bla bla bla bla….

Após me recuperar rapidamente da porrada no fígado e quase ouvindo a galera de fora do octógono vibrando com a minha dobrada de joelhos, adotei o tom novamente sério e o rosto firme, olhando nos olhos do meu agora não mais entrevistador, mas quase um adversário.

– Bom, então vamos ter um problema. Taí um negócio difícil de eu mudar no meu cv…

Bang! A resposta pode até ter sido boa, meu agora adversário tinha sentido o golpe, mas para o bom andamento da entrevista, tinha sido um desastre. Confrontar o senhor dos aneis naquele momento, com menos de 5 minutos de jogo, foi considerado movimento proibido pelo adversário – que acumulava a função de árbitro do encontro – e sujeito a desqualificação.

A partir daí azedou de vez. Eu tentei recuperar o controle do processo – assunto para outro texto – mas não conseguia. Claro, o fato do entrevistador falar coisas que eu não conseguia entender não ajudou muito o processo. Ele foi para um quadro branco e – entre claros sintomas de arrogância aguda e pouca modéstia – começou a desenhar a maneira como ele via a oferta de serviços de consultoria para os grandes gestores dos mega-eventos e entrou num consultês que até para mim – que tenho algum tempo na área – passou a ser uma conversa de louco. Eu procurava insistentemente as legendas na parte de baixo da tela. Em vão…

Em quase todos os casos a conversa sempre caía para o tema dos “pouco competentes economistas” que por sinal, era o meu caso. Quase patológico…

Mas o gran finale estava ainda por vir. Após quase duas horas numa conversa nonsense, onde metade do tempo foi ele tentando me provar que engenheiros são melhores profissionais que economistas, e na outra metade falando coisas absolutamente sem sentido para mim, ele soltou essa:

– Vicente, seu currículo é muito bom, mas eu preciso pensar um pouco mais; tenho uma viagem semana que vem para Dubai, outra depois para a Europa em nossa reunião mensal da rebiboca da parafuseta, mas quando eu voltar eu gostaria de outra conversa com você. Nesse tempo você poderia fazer um cv mais completo e me enviar para eu estudar melhor?

Eu já estava sem muita paciência, e coloquei a última pá de cal sobre meu processo:

– Fulano, você me desculpa, mas eu já entrevistei muita gente e também já fui entrevistado por muitos. Geralmente eu sei se eu quero trabalhar com um candidato nos primeiros cinco minutos da conversa. Dali prá frente serve apenas para eu aprofundar meu conhecimento sobre ele ou arrumar uma maneira de acabar a conversa elegantemente. Se você ficou aqui duas horas comigo conversando e ainda tem dúvidas, é porque a gente não vai se dar bem trabalhando.

Dito isto, levantei-me, estendi a mão e segui minha vida. Tempos depois soube que o sujeito tem sérios problemas com sua equipe e com alguns de seus pares, além de problemas de resultado. Mas ele continua lá, inclusive com direito a promoção e tudo o mais. Ironias da vida corporativa.

***

As lições desta conversa:

i. não entre em confronto com seu entrevistador; não vai ajudar;

ii. não leve para o lado pessoal; qualquer feed back do lado de lá deve ser assimilado e não tirar você do seu foco; respostas emocionais levarão a um terreno onde você pode não saber jogar e o desviarão do seu objetivo central;

iii. por falar nisso, tenha sempre em mente qual o seu objetivo naquela reunião; nada deve tirá-lo desse objetivo; como em qualquer plano de jogo, se as condições do campo ou do seu adversário mudarem, você tem que saber mudar sua tática;

iv. qualquer entrevistador vai contratá-lo pelos motivos “dele” e não pelos seus motivos. Então, se ele não gosta de algo no seu histórico, cabe a você provar a ele que isso não seria um obstáculo para atingir os resultados “dele”.

Difícil? Bastante. Mas nem sempre as coisas funcionam do jeito esperado. E no limite, se tudo der errado e você for “gongado”, vale a pena pensar no seguinte: por mais que você quisesse aquela posição, trabalhar com alguém que você não tem empatia pode ser algo muito ruim prá sua carreira no médio prazo. Então há males que vêm prá bem.

Vamos em frente!

Anúncios

2 comentários em “A segunda pior entrevista na carreira

  1. V Criscio

    Gabriel qualquer dia eu conto. Foi hilária, mas menos trágica.
    Abs

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: